quarta-feira, 6 de julho de 2016

sempre falo mais de caminhar do que de amar
entendo mais de calos e bolhas
areias inexploradas, subidas escarpadas
caminhos de viés
do que de coisas do amor
pouco sei das suas delícias e intempéries
dos arranjos místicos e harmonias astrológicas
na vida, decerto,
meu coração anda
o que pulsa são os meus pés

terça-feira, 24 de maio de 2016

minha língua é puro altruísmo / quando acerto, já sei /
quando erro é neologismo

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Porque voa! (Astrogildo e a Astronave)

Dizem que, em Ipiaú, “quem menos anda, voa”. E até quem não voa, voa também. Porque sonha.
Astrogildo Andrade Santos, personagem dessa terra, não nasceu com asas. Portanto, não voava. Portanto, sonhava.

Mas Astrogildo não sonhava só. Toda a gente da cidade vivia biruta com as histórias do protético e mecânico que queria voar. Mesmo os que não acreditavam, estariam com seus olhos voltados pro alto, na esperança de ver Astrogildo e a sua astronave passeando pelos céus do Vale do Rio das Contas.

Eram sonhos dentro de um sonho.

Terra de insanos, dirão. Terra de insanos, eu hei de concordar. Afinal, só um cidadão feito debaixo daquela abóboda celeste poderia se arvorar a desafiar a gravidade, montado num helicóptero feito de alumínio e movido por um gerador em motor contínuo.

Foi voando no sonho de Astrogildo, que a Macondo do Sul da Bahia* transpassou novamente a realidade e rompeu com os limites de sua geografia. O seu lado fantástico, mais uma vez, se desnudou pelas lentes de Edson Bastos. E, em praça pública, do outro lado da tela, toda a gente se reconheceu. Porque sonhou. Eu não estava lá, mas eu vi. 
Não duvide!

Foi de carona na astronave de Astrogildo que eu cheguei até aqui. Me sinto em casa. Uma coisa nessa viagem eu aprendi: voar é mais uma questão de vontade do que de asa.


*apelido dado à Ipiaú pela poeta, atriz e personagem do filme, Daniela Galdino.


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O que há nessa rua, atravessada em sonho, na qual me perco e ela mora?

terça-feira, 10 de março de 2015

Trem

Vou contar-lhes um acontecimento, que de tanto não acontecer, só existe no meu pensamento.
No meu interior vai passar um trem.
Imagine aquele gigante barulhento rasgando o marasmo da cidade.
Furioso, apitando e esfumaçando o caminho do menino, que segue atrás correndo.
Imagine você, que cidade não há e o trem é aquele momento.
Aquele. Em que você não acordou, nem dormiu,


mas deixou de sonhar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Flor tua

Eu seria chão.
Se tu pisasses por aqui,
eu seria.
Mas tu não pisas.
Quando muito,
flutuas.
Se tu pisasses em meu coração,
pluma.
Meu coração,
sozinho.
Meu coração,
toma!
Meu coração,
macio.

Mas tu não pisas.
Quando muito,
flutuas
e move o vento que passeia
pelo meu vazio

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Ela

Ela me disse que sonhava.
Me disse que o céu é mais bonito quando visto fora da cidade.
Que quando um amor acaba, outros mil renascem em algum lugar do planeta.
E que o mundo é do tamanho do meu desejo.
Me disse pra eu tomar cuidado com os joelhos.
Pra eu não exagerar no açúcar e no sal.
- Faz mal!
E logo depois me disse pra não me prender nessa coisa do Maniqueísmo.
Me disse que o sentir não se mede.
Que chorar é regar o chão do que há por dentro.
E que esquecer não é apagar, e sim recolocar o que não se quer lembrar, em outro lugar do pensamento.
Ela me disse que algumas estrelas morrem.
Que não conhecemos nem 1/3 dos oceanos.
E que Jesus, provavelmente, é fruto de uma compilação de mitos da antiguidade.
Me falou, numa noite de bebedeira, que a vida é curta para fazer tantos planos.
Que é bem capaz de eu ter mais características do meu ascendente, do que do próprio signo.
E que eu já não posso mais agir como se eu tivesse vinte e poucos anos.
Me disse que não acredita em destino, que o acaso é senhor e nada está definido.
Disse ainda que não há dor que se remedie por decreto/completo.
E que todos os conceitos acerca do que é pós-moderno, já cheiram a mofo assim que nascem.
Me lembro de um dia ela me dizer que, se não há erro, não há do que se redima.
E disse mais: disfarce.
Finja que não há nada diante de ti que te derrube ou pare.
Não sei se é verdade.
Mas se ela me disse, eu acredito.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Diz:
o que tu sentes
é fluido torpor,
algo que escorre pra dentro da gente
e pra fora de tudo.
Ou é transparente,
sal na brisa marinha,
vapor?
Isso tudo que tu sentes é água,
ou simplesmente,

brincadeira de amor? 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O mar, o homem e o grito.



Quando a poesia salta do papel e vira música, é pra Partir o Mar em Banda. Pra separar o joio do trigo. Pra quebrar tudo. Despencar.

Navalha na carne, sangue no chão.

Partir o Mar em Banda, o primeiro disco de Ayam Ubráis Barco, é visceral. Como um grito há muito tempo sufocado, que quando irrompe as amarras, reverbera por anos e anos. Aliás, essa é a sina dos grandes discos, serem ouvidos pela eternidade e soarem sempre como se estivessem acabado de nascer.
São ecos e ecos e ecos.

Ayam revisita a infância, a militância, a tragédia. Baila com a tristeza e a loucura. Brinca de ser cantor e ator da própria história. E navega. A impressão que se tem, desde o primeiro acorde, é que nessa viagem, o cais de partida é o mesmo de chegada. Partir o mar é partir a si mesmo. Bagunçar tudo e depois juntar. Ser o que o oceano traz à praia e o que ele sepulta.

Amigo, foi quem correu perigo.

É um disco de Rock totalmente autoral, recheado de influências diversas, feito em casa e rodeado de amigos. Cada sessão de gravação era uma celebração do talento e da colaboração. Partir o Mar em Banda está impregnado dessa boa energia. As transições que costuram uma na outra canção, são como mãos dadas, punhos cerrados para o alto, abraços apertados.

Com esse disco Ayam Ubráis manda um recado:

- Ei, você ai! Sai dessa zona de conforto. Estamos todos no mesmo barco. Haveremos pois de remar juntos, lado a lado. Porque bons ventos nos trouxeram e bons ventos nos levarão. Dale! Dale!




terça-feira, 9 de setembro de 2014


mas era a vida a te chamar,
com sua voz severa e doce,
do outro lado da rua

e era te deixar ir
sobre os mesmos passos pelos quais chegaste
com os mesmos sapatos que pisaste o chão inexplorado
de minha poesia

mas era a vida a gritar teu nome
logo ela,
que te dá a beleza da preguiça,
quis urgência

bandida

Era te deixar ir,
porque tua chegada foi a minha volta
e a tua partida a minha ida
pra essa vida infinda
que nos dá
com a mesma mão que nos tira

sabida

era a vida a te chamar,
a fazer birra,
a deitar no chão esperneando

era a vida derramando à esmo
as responsabilidades e os sonhos


era a vida gritando pra ti:
acorda!

enquanto cantava para o meu sono