quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Tipo Leminski II

                                   em toda reza peço o que mereço
qualquer coisa mais que isso é exagero
          pode ser ave maria,
 terço
                   ou novena de padroeiro
se você nunca rezou
                           o pai nosso é um bom começo

Tipo Leminski

esquecera de mim
        fiquei aqui deste lado
se não queres vir aqui
                           fico bem no meu quadrado

deste lado fico bem
                              não preciso de mais
porque no quadrado
                                     todos os lados são iguais

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

Eu sei.
Nenhuma grande proeza precisou de sócio.
Enquanto a vida de muitos sucumbe ao ócio,
A mediocridade assume lugar no esplendor.
É falta de amor, diz o diagnóstico.
Já o agnóstico não sabe se acreditou.
Vou revelar algo de conteúdo impróprio.
Próprio de quem não tem o que esconder.
Em pequenas pelejas eu não vou.
Em grandes igrejas eu não volto.
Eu sei.
Minha alma não precisa de prova, 
pois da minha consciência sou devoto e ela renova dentro de mim o que eu já sou.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vir.

Estamos mais próximos de um fim, do que de um recomeço.
Muito aquém do que mereço e além do que posso dar.
Desconheço caminho novo ou luz desvendada.

Éramos muito, erramos demais.
E somos.
Mais do mesmo.
E mesmo sendo nós de novo.
O querer já está confuso.

É tanto mundo que aflora.
Há mais ternura no chão.
Há tanta vida lá fora.
E luz pra toda escuridão.

Essa gente toda me espera.
E eu completo de mim,
Estou de braços abertos.
De novo.
Vou dar um abraço no mundo.

Vou vagar.
 Vagabundo.
Andar por ai.
Conferir poesia as coisas normais.
Grandiosas em sua pequenice.

Meu coração é poço fundo, vou enchê-lo até o talo.
Estourar o gargalo da mesmice e do engano.
Virar tudo.
Furar bolo.
E ser.
Maior de todos.

Sou eu.
Surpreendo, mas não assusto.


Acostumei-me ao talvez do mundo.
Estou mais perto,
e a tudo me disponho.
E de tudo me despeço.
Despenco no sonho de ser o que quero.
E àquilo que sou empresto,
Um pouco do que há de vir.
E eu espero.



quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Invadir

Vou invadir, antes que eu enlouqueça.
Que os sinos dobrem e eu acorde de ponta cabeça,
com o estômago pelo avesso, avesso a tudo que é comida.
E a minha barriga ganhar apreço a tudo o quanto é vida, 
quando a vida é recomeço.

De vez em quando, de tanto lembrar esqueço,
Que o instrumento com o qual talho o meu desejo,
É falho, é folha ao sabor do vento.
E ao sabor do vento espalho.
É força que vem de dentro.


E eu, contudo, 
confundo.
Alhos com bugalhos,
Poça com poço fundo.
E me cobrem de enxovalhos.

Que caralho!
Quero um trago de um cigarro.
Quero um carro.
Quero boas, novas notícias.
Quero pistas.

Vou entrar, antes que amanheça.
E eu esqueça de lembrar do meu desejo.
E deseje comer o meu apreço.
Meu estômago ronca.
É vida ao sabor do vento.
O custo de quê?
Pagarei o preço.



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Foi...

Eu nuca quis que fosse assim,
Mas o querer tem gênio forte,
Às vezes pirraça, outras vezes mata.
Entope as veias, obstrui o pulmão.
É como um carro engarrafado.
Às vezes anda e corre, às vezes para.
Deita e rola, noutras exala.
Um querer forjado a ferro e fogo.
Derramado sobre folhas de papel,
Escorria sobre a fronte borrada de preto.
Hoje assim, outrora cheio de dentes,
fazia ver-se de longe, dava sinais de fumaça à tua falta.
Não pretendia ser exato, mas sabia ser forte.
Usava uma caricatura falsa, feita com papel machê e cola,
Saía pra rua de cara pintada.
Era surpreendido desnudo de circunstancias.
Matava e morria sem vergonha.
De virtude e vicio se detinha.
Um querer de alma lavada,
Fazia cobertor de grãos de areia,
E de qualquer sorriso sua morada.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sobre verdades, clichês e otras coisitas más.


Do macaco ou não, você veio, ou melhor, você está aqui.
Filho ou não de Adão e Eva, você está aqui, mesmo sem pedir.
E precisa ser algo ou alguém que possa se enquadrar em algum modelo, que possa ver sua imagem bidimensional numa foto 3x4 tirada 15 anos antes e dizer:
- Esse sou eu, tinha um cabelo mais liso e loiro, agora tá mais crespo e escuro. Minhas células se renovam completamente a cada 7 anos, mas eu ainda sou o mesmo, sou esse aqui da foto.
Deve ser difícil não ter escolhas, quando você menos espera é agraciado com o “milagre” da vida. Você conseguiu. Foi o mais eficiente entre os espermatozóides do seu pai naquela noite, e o melhor, permitiram que você viesse ao mundo. Agora já que está aqui trate de fazer algo, esse é o momento de interferir. Mesmo sendo mais um no meio de 6 bilhões seus atos têm impacto e, cada escolha sua, por menor que seja, muda totalmente o desenrolar da sua trajetória.

Aliás, falando em escolhas, lembre do livre arbítrio ou da chamada liberdade de escolha, mas não esqueça que Deus é onipresente e onisciente, ele sabe de tudo. Lembre-se que você pode enganar a si próprio, não que isso seja um absurdo, afinal, mentiras e verdades alimentam-se uma das outras, a mentira precisa de verdade para existir.
Aproveitando a deixa: “quanto da verdade você é capaz de suportar, quando tudo que é sólido se desmancha no ar?”
Acredite ou não numa verdade absoluta, numa comprovação científica. Que seu corpo é um emaranhado complexo de água e carbono e, que cada ação por menor que seja é controlada por impulsos elétricos e reações químicas. Você quer muito fazer algo, mas seu corpo e sua mente nem sempre estão em perfeita conexão e você é um desastrado derrubando tudo no caminho.
Essa ideia de vida, de tempo, o que você faz com ela? O tempo dividido em períodos aos quais demos nomes de séculos, anos, meses, minutos, milésimos de segundo, podem ser um instante só, escurece e amanhece e estamos no mesmo instante, um grande instante. Para alguns um eterno retorno, uma repetição maquiada.
Almas novas ou reencarnações? Cada um de nós somos o que somos, ou carregamos conosco milhares de anos de informação genética ou possivelmente de vidas passadas? Teremos então uma segunda chance?
Você sentado á sombra de uma árvore observa uma maçã, de repente ela despenca e despedaça-se no chão, eis que uma força incide sobre aquele corpo fazendo com que ele caia. A mesma força que faz as coisas ficarem aparentemente estáticas e presas ao chão. Mas enquanto isso você voa nos sonhos, percebe que não existem leis para o pensamento e mesmo assim você quer puni-los.
Uma palavra cruzada já resolvida por alguém foi resolvida por todos no mundo, uma ideia expressada é uma ideia compartilhada, e todos tiveram essa ideia simultaneamente. Estamos conectados de alguma forma, somos aqui nesse grande instante, personagens, agentes. Não insista em ser mais uma formiga, não passe por alguém e siga em frente, tudo que foi fluiu para isso.
Bom dia pra você também, meu nome é...

Criamos a linguagem pra transcender o nosso isolamento, use-a a seu favor. Pense bem: as palavras, organismos inertes, sem vida, podem expressar situações complexas e densas, cheias de experiências as quais não podem ser entendidas apenas de forma material. É quando esse conjunto de símbolos ganha vida e se torna capaz de expressar o essencial, que muitas vezes não captamos através das pupilas, ou papilas da nossa língua.
Criamos um som para o pensamento e esse som é proveniente da união de letras. É por meio dessa união simbólica que lemos o mundo e compartilhamos nossas experiências sensíveis. A palavra “Amor”, quando pronunciada, traz consigo uma enormidade de significados, estes que estão submetidos a um contexto.
São tantas opções e você se sente engolido por elas, faz tudo para estar sempre certo, mas daí lembra que o certo é relativo e que tudo vale à pena, pois seu instante é agora. Se arrependa só do que você não fez, mas é importante lembrar que seus atos têm conseqüências, e que a omissão também é um ato. Viver mais apaixonadamente, assumir a responsabilidade do que se é, a vida é a sua obra a ser criada.

Você tem culpa e não carrega a cruz, o outro tem, e não dá a mínima pra ela pra ela. Você pecou quando eles pecaram, você comeu a maçã, assuma e regozije-se na angústia. Ponha os joelhos no chão e será salvo, ou melhor, “conheça a verdade e ela vos libertará”. Mas qual verdade em meio a tantas?
Você está num barco, para onde você quer ir? Caso não saiba, posso te deixar em qualquer lugar, pra você não fará diferença. Ao chegar, você então provavelmente vai me perguntar. - Que lugar é esse? E eu vou responder. - Tanto faz, pois, você não sabe aonde quer ir.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Antes

Antes o fim dos tempos que vazio no peito.
Antes um poço fundo.
Respirar ar rarefeito no topo do mundo.
Antes ser um ébrio andando com e entre os ratos.
Antes parar no meio, fazer feio entre os melhores.
Ser pego no flagra em trajes menores.
Antes o desespero de ser um mutante
 que deixar pra trás tanto amor nesse músculo pulsante.
Antes andar sozinho, mudando de cara.
Fingindo uma flor, uma estrada, um fim de tarde
E as aves voltam pra casa.
Antes mais uma guerra que vazio no peito.
Batalhar sem motivo ou pleito.
Atirar e acertar a si mesmo.
Ser andante,
Prefiro ser ou não.
Metamorfose ambulante.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

De javu

Era só aquilo pra eu te ver.
Meus olhos, ora tão distraídos, pararam de procurar.
Que faço eu da sua aparição?
Sendo e solto levando o vento.
Seguindo a melhor maneira de estar.
Cedo eu.
Sendo seu e dó.
Melhor você a mim.
E eu a ti me disponho.
Desatado em desatino.
Perdido no baú de achados.
Corro perigo.
Será que alguém corre comigo?
Corro.
Corra.
Alguém pra correr comigo.
Ó esse alguém no invés.
Quisera eu mais uma vez derramar sobre ti os meus olhos.
Quiçá me destes outro viés.
Quem sabe queres um abrigo.
Digo mais do que for preciso.
Pra levar de ti o mais sublime.
Desisto do disfarce.
Como voltar pra´quele momento?
Como posso depois de tudo querer apenas um Déjà vu? 
Você ainda quer dançar comigo?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Primavera

Partiu como um bicho voador.
E até hoje ouço os zumbizar das suas asas.
E até hoje sou um copo derramado,
Revirado de poesia e caos.
Esperando a próxima chuva.
Um disco arranhado no mesmo verso.
Poeta incompleto perdido na folha em branco.
Banco de praça à mercê dos pombos.
Pondo as mãos, e nada no bolso.

Partiu de pronto, destrambelhada.
E até hoje ouço o tilintar das suas pulseiras.
E até hoje sou rua deserta,
Seta que não acerta o alvo.
Sou calvo, carro, pneu careca.
Me acerta, me leva pra sua meta.
Deixe que eu me meta.
Me arruma.
Me joga contra o peito.
Faça de mim um homem desfeito.
Me leva.
Me lava.
Me entrega.
Me lança na tua boca salivada.
Que eu morro feliz nas tuas águas.

Partiu e deixou o cheiro de incenso.
E até hoje a fumaça revela.
E até hoje sou aquele que espera.
E a vida vai.
O tempo joga.
A rotina exaspera.
E até hoje eu preparo a terra,
Sou flor fora do tempo,
Esperando a primavera.