quinta-feira, 22 de maio de 2014

D´alpendre

não eram as coisas da casa,
não eram
era a vida inteira adormecida no chão da sala
pedaços de nós encalacrados na trama do tapete persa
farelos da nossa pele na poeira que dança
e no reboco das paredes do quarto

estava tudo ali
ou não estava

não, não eram as coisas da casa

era o verso, era o teto, era o gozo embargado,
era a poesia trancada no armário da sala
junto à prataria que não foi usada
nem nunca será

o coração do poeta dura
e desagua no verbo

do que me importa o que grita
o que escandaliza
o que extravasa
se o que me mata é o não dito
o não feito

é a brisa, não o vento.



terça-feira, 29 de abril de 2014

Não era seu.
Era céu.
Não chorei.
Chovi.

sábado, 5 de abril de 2014

Unhas negras

Não terminou.
Nada termina.
amar, noves fora a vida,
é ato contínuo.

É um passo à frente
no horizonte que se esconde
um grão a mais
na fuligem do tempo que expande
e se queda lento.

Não parou.
Nada está parado.
Até a rocha, inerte, se entrega.
Ora ao vento, ora à chuva.
Até a rocha, veja você, sabe perder
para não estar só.


Minhas mãos revolvem a terra
e tocam teu rosto.
Tua pele alva e minhas unhas negras.
Minhas unhas negras e a tua voz calma,
e a música lenta que vem de longe.

Minhas unhas negras, afinal, riscam a tua cara.
Revelando teus sulcos e as tuas cicatrizes,
pintando teu suor e as tuas vergonhas.

O vento esculpe o teu cabelo, artesão de nascença,
e esfria o chão sob os teus pés,
e segue uivando por entre as frestas da porta entreaberta
por onde saí.
A casa está vazia.

Não acabou.
Nada está realmente acabado.
a vida, noves fora o amor,
é uma faísca que se solta
e rompe com a escuridão da noite
queima, arde, se apaga.

O dia nasce amarelo-roxeado aqui da minha janela.
Sinto a ferrugem e a maresia;
cheiro o orvalho e a flor de amendoeira.
As primeiras horas da manhã são minhas.
Vista daqui de cima a rotina
quase não mata, alivia.

E o  que se disse terminado,
parado, acabado.
E o que se disse do amor e da rocha,
da tua pele clara e das minhas unhas negras, se cala.
Só para ouvir passar o vento.


segunda-feira, 31 de março de 2014

A vida se contrai

A vida se expande

A vida nada mais

que um passo errante

um beijo fugaz

na noite dos amantes


segunda-feira, 24 de março de 2014


desperdiça um tanto de alma

aquele que chega à sua margem

e, mesmo olhando a si mesmo

frente a frente,

não mede luz nem profundidade.

terça-feira, 18 de março de 2014

Alta afinidade

orgia e poesia
por que não juntas?
afinal, palavras se entrelaçam e se enamoram
como também se enamoram e se entrelaçam os corpos
palavra puxa-palavra e gente chama gente
na relação direta do côncavo e do convexo
palavras fazem sexo
e a vida nasce no ventre da gente

Andai-me

sou operário na (des)construção civil
de qualquer ordem arquitetada
por engenheiro ou mestre de obra
sigo desmisturando o cimento do eu
com o momento líquido
poeira
meu coração gira, gira, gira
no fundo de uma betoneira
e minha língua arranha o céu
da sua boca, estrela
o vão aberto da marquise
a queda livre do suicida
o saco plástico que voa
enfeita a cidade deserguida
o homem chora a lágrima descaída
o pão não é concreto, decerto
tudo é tão vago, apago
no meio da multidão
deserto,
a andar em ti
em mim
a andaime 
Salvo engano,
atrás do pano,
há sempre alguém esperando
para desaparecer.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Saudade
mata a gente
de foi-se

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Faz escuro e mesmo assim eu canto.
A palavra acenada tem luz.
A música do amor tem encanto.
Pelo breu que há em tudo,
manso, teu olho me conduz.