terça-feira, 24 de abril de 2012


Amor. 
É assim que deve chamar-se as poucas coisas que me mantém.
As grandes coisas que me mantém.


Meus amigos, sei quem são e regozijo.
Meus desafetos, tão parcos e discretos, se tenho não sei.
E não saber é mais que a ignorância do não querer ver, é que às vezes não sei quem sou, quem dirá você a você.


Passou, passa, passará.


Se for a vida, tão bela e finda, beijo-lhe a face sob a chuva da despedida.
Se for a morte, destino ou má sorte. Que seja doce, música serena.
Que seja plena.


No meio da rua, no meio do mundo, é tudo que tenho.
Esse agora, esse tudo e o não saber que intuito tem.
Deve se chamar amor isso tudo que eu quero.
Isso tudo que eu tenho.
Essa planta, esse sol, esse mar.
Deus!
Deve se chamar amor isso tudo que eu sou.


quinta-feira, 22 de março de 2012

Festa

É festa menina, enfeita tua alma.
À noite infinita empresta poesia.
Lambuza, pinta de rosa os beiços, batom.

É festa menina, prepara teu corpo.
Vem macia, pele, óleo de coco.
Vem brilhar tua aura colorida.
Sai pra fora do terreiro.

É festa menina, espanta o gato preto.
Vem na noite, zói aceso,
Vagalumeando estrada a fora o meu desejo.


É festa menina, penteia os cabelos.
Faz trança e arremata o laço com fita.
Põe teu vestido, o preferido.
Foge do pai, sai correndo.
 Dá um jeito.

É festa menina, em meu peito.

terça-feira, 6 de março de 2012

Matemática para mim



A razão desconexa que faz existir a vida,
A vida enquanto equação que não fecha.
Qual é a razão matemática de ser?
Sobretudo, de ser eu, assim, elevado a qualquer potência.
Eu sou o que vi e o que vi sou eu.
Essa é a minha propriedade comutativa.
A estrada que faço e a estrada que me fez.
Eu mais eu, sou igual ao mundo.
Mas o mundo sem eu continua mundo, menos um.
Dizima periódica do existir.
Amor é infinito.
Coração número primo.
Só divido comigo e por uma.
O resultado de tudo isso, me contém ou está contido?
É igual ou diferente de tudo que fiz até aqui?
Qual é a fração da vida que me cabe?
Puta que pariu, só agora que percebi!
Não sei fazer conta.
Só sei sentir.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Amar é caminhar beirando o abismo.
E os caminhantes,
alheios a possibilidade da queda,
Dançam, cantam e abraçam o perigo.
Amar é um desaviso. 
Mas, pobre dos que não se arriscam:
não aprenderão a andar
e nunca entenderão o que eu digo.
Amar é um jogo perigoso,
no qual os amantes são a peças,
o tabuleiro é o mundo,
e o mundo é coração despejado sobre a mesa.

+ amor

Na busca pelo entendimento o amor se perde, se acha e se ergue.
É sim, escudo e espada. 
Amor é contagioso e espalha, vai na brisa.
E em todo momento de prazer existe. 
Amar é preciso, porque a vida não basta.
.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012






Quando o gemido irrompe e arrepia
A primavera grita
Quando um sorriso, matreiro, desenha a face


Uma afronta

Defronte ao mar
Acerto o ponto
À margem
Alinho o traço

Teu corpo, de areia e sal,
 melado
Leio em braile

Quando oceano, entregue à praia,
abraço
Quando você, farol
Acendo


Na sua língua
Na ponta
Era visgo

Minha libido
Era vida

Saliva de maré cheia
Serei eu?
Tanto mar

Serei-a
Arranha céu
A unha do desejo

Na beira do Atlântico
Obsceno
Teu beijo
Beijo


E observo
O mundo a sós


Na tempestade
Sou barco


Tem outro lado?
Atravesso

Sou novo
E têm estrelas a me dizer:


-Bem- vindo a era de Câncer!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pedra 90

    Amigo é essa coisa que a gente rega todo dia e cresce.
                           
        E no dia seguinte a gente planta novamente.
                                                     
            E daí cresce e multiplica.


              E daí fica, encosta no peito e protege, joga pro alto e apara, não acaba.
                               
                 Não dá cabo de tanto esperar pra ver de novo.
                                                                               
                    Num amanhecer lá em cima do morro, uma viola encantada toca a música dos nossos sonhos.
                 
                        É essa coisa erguida em sólido alicerce, que não entorta nem cede a qualquer brisa.
                         
                           E imponente nossa arquitetura se ergue.                                          


                              No horizonte onde a manhã esclarece, a nossa vida prossegue plena e iluminada pela amizade deles...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Palo Alto



Mais do que ouvir o astrônomo instruído como fez Whitman, é preciso entender os sinais que a vida dá, porque sim, eles existem. Não é numa manhã de terça-feira que tudo desaba. Não é numa noite em claro que tudo se desespera. Não. Coisas antecedem coisas, ondas sucedem ondas, na prática relação causa-efeito.
Sabemos o que é música porque antes nos foi permitido apreciar o silêncio. Gostamos da luz, porque antes tememos a escuridão. Uso essa comparação um tanto clichê, pois assim me faço entender de maneira mais clara e pop. Uso antagonismos porque muitas vezes questionei: por que eu? Ou, por que não eu?
Antes de desejar ter outra vida permiti-me conhecer a minha. Agora, toda vez que eu olhar o cara do paletó, no seu carrão com ar-condicionado e pensar: ali vai um cara super satisfeito com a vida dele. Ou olhar um mendigo de rua e pensar: como pode alguém escolher viver assim? Vou lembrar-me da minha vida e dizer: Ufa! Que bom que esse sou eu.
Vou lembrar que tive infância. Que fui bem criado e educado. E que não tive tudo que quis, mas sempre tive o que precisei. Saber que nisso não há nada de conformismo me faz melhor. Há sim entendimento e compreensão. Há a maturidade do arrependimento e o gozo da vitória também. Nisso, há vida em sentido puro, há alma em mutação, há, mais do que nunca, um coração em metamorfose.
Tiro as borboletas do estômago e as levo para os meus jardins. Deixo o brilho para o sol e a brisa pra uma tarde de domingo. Deixo o charme para os manequins, a maquiagem para as pin-ups e a boemia para os botequins. As coisas são o que são, e nada vai mudar isso.
Fico, e finjo que o queria mesmo era ir embora. Abro os olhos dos meus olhos e os ouvidos dos meus ouvidos, como sugere Rubem, o Alves. Tudo agora é som, e toda palavra me diz, toda vida me ensina. Acho pedras divertidas, como Caeiro e tiro as pedras do caminho, como Drummond. Acredito no latim do Carpe Diem e no amor puro de Djavan.
Olho e repouso sob a sombra de uma árvore frondosa e cheia de frutos. Seus galhos e ramificações se encontram, sua seiva alimenta e fortalece o tronco forte da amizade. Nas suas pontas, bem lá no alto, no mais perto da beleza em que posso chegar, vejo:
Cynara, seus sonhos, palavras e raios de sol. Junior, Simone e seus filhotes, são aquilo que eu quero me tornar. Eveline, a irmã de alma que Deus me deu. Gustavo, desde pequenininho, fala ai Dinho! Marcelo, Peu, Gui, Diego, Marcel. Salve o Diego daqui, o Nêgo e a nega Mariana. Salva ai Caio e Pecinho! Marcinha e seus rebentos, que família linda. Xexinha, como é bom ouvir tua voz, sentir tua força e compartilhar de tanta empolgação. Marco e as palavras sábias. Meus colegas da lida diária aqui na Formato e sua compaixão.
Vejo também aqueles para os quais eu nunca vou deixar de gritar: aí sim família! Estamos juntos. Contemplo todos que me amam e cabem nessa crônica. Todos que eu quero bem e não me abandonam. Dadai, que sorte a nossa! Tarik, sem palavras. Muito obrigado sempre.
Vejo de perto e, principalmente, os que são parte de mim. Que me fazem todo dia lembrar quem eu sou, de onde vim e pra onde eu posso sempre voltar. No verso sabiamente cantado por Mano Brown, “Família em primeiro lugar, é o que há”.
Sento e repouso após um dia longo. Eventualmente a brisa chacoalha as folhas, o sol escapa por entre os galhos e esquenta um pedacinho da minha perna esticada. De vez em quando vem um Bem-te-vi, outrora um Papa-capim que canta B.B King. Meus pés escarafuncham a terra, acordando as larvas e as essências silvestres. Lavoura Arcaica é o que me ocorre, como um lapso de vida passada.
Numa moldura solta, pela qual passam nossas histórias, vejo Anike dando-me um banho e me acalmando com panos quentes. Meu Pai sentado à mesa tarda o fim do café. Enquanto minha Mãe canta um louvor na cozinha que reverbera pelo corredor e chega perto do céu. Minha vó Gracil, como a Úrsula de Garcia Marquez, é testemunha. Sua sofrência e o seu clamor à Santa Rita põe velas acesas.
Á minha frente um grande vale escorre por entre as pedras mais altas. O caminho é uma linha riscada em meio ao bailado do capim e da capoeira. Saco do meu alforje minha única arma, que é escudo e também espada. Que é minha bagagem, meu refúgio nas noites de chuva, a lamparina quando a lua não vem; o meu pão, meu corpo e meu vinho. O amor: essa é a minha foice de abrir caminho.
Levanto e me lembro de um dia ter escrito algo assim: sustento-me, carrego um peso sem medida, seguindo o exemplo da Formiga. 
É preciso seguir, na Via Crucis ou na Highway ampla e veloz. No percurso ou no contra fluxo. A Primavera já está, e mais um Verão vem aí. 
Abriu meu sinal. A vida não espera para acontecer. 
Porque eu?! Porque sim...


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Invenção


Quem inventa o amor, o faz em desvario, e por vezes sofre ao vê-lo mínimo, parco e desbotado.
Quem inventa uma felicidade, desespera-se ao vê-la falsa e sem sabor numa tarde vazia.
Quem inventa um conto, aumenta um ponto, dá nó em pingo de éter e tem o que dizer quando for avô (a).
Quem inventa a si mesmo surpreende-se ao ver-se vistoso e revigorado.
Quem inventa de ser o que não é, sorri ao não reconhecer-se no espelho, mas logo dá com a cara no chão e os burros n´agua.
Quem inventa a dor, frustra-se ao perceber que sua dor é menor que a do outro, e que as do mundo desatinam a doer sem medida.
Quem inventa o dia, um pôr-do-sol lilás, borboletas azuis num voo suave, uma orquídea no meio da mata;
Quem inventa a mata e as árvores frondosas com bichos nas galhas;
Quem inventa a paz, a liberdade, o desapego;
Quem inventa Deus e o Diabo numa terra sem sol;
Quem inventa a paixão, o contrário, a solidão;
Uma praia deserta e a gente deitado nela;
A canção, uma oitava acima de todos nós;
Quem inventa uma nova saída, um lugar para boas ideias;
Quem inventa de ser teimoso e acha o caminho das pedras;
Quem inventa de morrer e passa pro lado de lá;
Quem inventa o mundo, o absurdo de acharmos que somos únicos;
Quem inventa eu, você, outrem, outrora, a hora, agora;  
Quem inventa é sábio. Tem alma de criança e espírito livre.
Porém, quem nada inventa, nada vive.
Quem nada inventa, já morreu.