terça-feira, 28 de outubro de 2014

Diz:
o que tu sentes
é fluido torpor,
algo que escorre pra dentro da gente
e pra fora de tudo.
Ou é transparente,
sal na brisa marinha,
vapor?
Isso tudo que tu sentes é água,
ou simplesmente,

brincadeira de amor? 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O mar, o homem e o grito.



Quando a poesia salta do papel e vira música, é pra Partir o Mar em Banda. Pra separar o joio do trigo. Pra quebrar tudo. Despencar.

Navalha na carne, sangue no chão.

Partir o Mar em Banda, o primeiro disco de Ayam Ubráis Barco, é visceral. Como um grito há muito tempo sufocado, que quando irrompe as amarras, reverbera por anos e anos. Aliás, essa é a sina dos grandes discos, serem ouvidos pela eternidade e soarem sempre como se estivessem acabado de nascer.
São ecos e ecos e ecos.

Ayam revisita a infância, a militância, a tragédia. Baila com a tristeza e a loucura. Brinca de ser cantor e ator da própria história. E navega. A impressão que se tem, desde o primeiro acorde, é que nessa viagem, o cais de partida é o mesmo de chegada. Partir o mar é partir a si mesmo. Bagunçar tudo e depois juntar. Ser o que o oceano traz à praia e o que ele sepulta.

Amigo, foi quem correu perigo.

É um disco de Rock totalmente autoral, recheado de influências diversas, feito em casa e rodeado de amigos. Cada sessão de gravação era uma celebração do talento e da colaboração. Partir o Mar em Banda está impregnado dessa boa energia. As transições que costuram uma na outra canção, são como mãos dadas, punhos cerrados para o alto, abraços apertados.

Com esse disco Ayam Ubráis manda um recado:

- Ei, você ai! Sai dessa zona de conforto. Estamos todos no mesmo barco. Haveremos pois de remar juntos, lado a lado. Porque bons ventos nos trouxeram e bons ventos nos levarão. Dale! Dale!




terça-feira, 9 de setembro de 2014


mas era a vida a te chamar,
com sua voz severa e doce,
do outro lado da rua

e era te deixar ir
sobre os mesmos passos pelos quais chegaste
com os mesmos sapatos que pisaste o chão inexplorado
de minha poesia

mas era a vida a gritar teu nome
logo ela,
que te dá a beleza da preguiça,
quis urgência

bandida

Era te deixar ir,
porque tua chegada foi a minha volta
e a tua partida a minha ida
pra essa vida infinda
que nos dá
com a mesma mão que nos tira

sabida

era a vida a te chamar,
a fazer birra,
a deitar no chão esperneando

era a vida derramando à esmo
as responsabilidades e os sonhos


era a vida gritando pra ti:
acorda!

enquanto cantava para o meu sono

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Saudade é nadar e,
na beira do mar,

nada

segunda-feira, 4 de agosto de 2014


eu fui embora de dentro do tempo
pra ser passarinho sem hora
voando sempre
e alto
e ao sabor do vento

com sede eterna de aurora
E era beber-te na água escondida
plácida e esquecida no fundo do pote
era minha boca tremendo ao teu barro frio
e a minha sede nova na tua boca
embriagava

era beber-te em grandes doses
sorvendo lenta a magnitude que há em ti
e sendo tu e tu em cada gole
e cada gole fazendo de mim coisa tua
que se dissolve

e era delirar-te na música implícita
mais do que implícita, sua
mais do que sua, glória

era delirar-te chegando perto
tão perto que já não podia tocar-te
pois éramos já uma coisa só
de dimensão
arte


sexta-feira, 27 de junho de 2014


Os poemas que eu não escrevi sempre me encontram quando eu te vejo.
Se fecho os olhos, esqueço.

Acho que a poesia é você.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Poema de outrora


Parar, incólume, diante do mistério

e sentir calar sobre mim as madrugadas mornas da minha terra


no labirinto sem fim das horas passadas

colher frutas e sonhos nos quintais das casas

deitar, por sobre a grama da memória,

meu corpo febril e minha alma nova

e ver descer sobre mim o céu sem tamanho


o peito transborda


que eu posso querer de mim

diante da vida imensa

da velocidade da luz

da cegueira perene

da alegria fugaz ?


que posso eu, nu por detrás desses versos

rei no domínio de coisa alguma

ou quase tudo

que for afago ou prece

que traga compaixão e humanidade;


que posso eu

que não sei ser o que mereço

e que quando tenho sido esse

mal me pareço

e esqueço de ser qualquer coisa

que seja isso

ou aquilo

ou nada


?

quinta-feira, 22 de maio de 2014

D´alpendre

não eram as coisas da casa,
não eram
era a vida inteira adormecida no chão da sala
pedaços de nós encalacrados na trama do tapete persa
farelos da nossa pele na poeira que dança
e no reboco das paredes do quarto

estava tudo ali
ou não estava

não, não eram as coisas da casa

era o verso, era o teto, era o gozo embargado,
era a poesia trancada no armário da sala
junto à prataria que não foi usada
nem nunca será

o coração do poeta dura
e desagua no verbo

do que me importa o que grita
o que escandaliza
o que extravasa
se o que me mata é o não dito
o não feito

é a brisa, não o vento.



terça-feira, 29 de abril de 2014

Não era seu.
Era céu.
Não chorei.
Chovi.